8.3.08
O Mestrezão
Tive o privilégio de ser aluno do professor Edison – quatro meses de aulas no Universitário, em que o Mestrezão, como ele mesmo se intitulou, ajudava a perpetuar o folclore dos cursinhos. “Mestrezão” por causa de sua meia-dúzia de cabelos no peito, que ele fazia questão de mostrar em aula e que o tornavam “irresistível” para as mulheres. Entre trejeitos, caretas e piadas, tudo servia para que ele exercesse seu grande talento – ensinar nossa língua. A começar pelo próprio nome, que ele enfatizava, estava errado, porque registrado sem um acento agudo no “E” de Edison.
Ele optou por uma maneira anticonvencional de ensinar por achar que o bom humor e o lúdico facilitam a compreensão de uma linguagem cheia de regras e de exceções – e que, diga-se de passagem, é muito mal ensinada em nossas escolas. Irreverente no método, mas ferrenho defensor da língua portuguesa. Lembro muito bem o Edison em programas de TV, subindo numa escada, na rua, para repintar placas em que havia erros de português.
O Mestrezão vai fazer falta. No âmbito de Porto Alegre, ele tinha a popularidade que o professor Pasquale Cipro Neto tem no país, como destacou certa vez a revista Veja. No entanto, o site do Universitário não dedicou uma só linha ao Edison, que recebeu o título de Professor Emérito do Rio Grande do Sul. Espero que o trabalho dele não caia no esquecimento, pois, se ainda é necessário um batalhão de Edisons para corrigir as crases erradas nas placas de nossas estradas, é porque precisamos de outro batalhão nas salas de aula, ensinando e ajudando os brasileiros a amar a língua portuguesa.
Leia aqui a matéria publicada em Zero Hora. Aqui, pérolas do Edison, relatadas pelo professor Geraldo Fulgêncio.
2.3.08
Onde os filmes fracos não têm vez
Apesar de meu gosto pelo cinema alternativo, arrisco às vezes um arrasa-quarteirão – e os heróis dos quadrinhos têm tido minha preferência. Mas, de novo, os resultados deixam a desejar. O roteiro débil do segundo “Quarteto Fantástico” não convenceu – e ainda perdeu a chance de aproveitar o potencial do Surfista Prateado, um personagem fascinante. O Homem-Aranha, por sua vez, está se tornando tedioso, entre novos vilões e o velho amor de Mary Jane, na pele da cada vez mais insossa Kirsten Dunst. Histórias mais profundas, com heróis (ou não) mais humanos e visual mais obscuro, contudo, têm se salvado, caso de “Sin City”, “300” e, claro, o Batman ressuscitado honrosamente por Christopher Nolan oito anos após a gelada protagonizada por Schwarzenegger e dez depois da bat-bunda de Val Kilmer.
Por que aquela sensação de admiração e êxtase ante a obra de arte (ou de pura e verdadeira diversão) tem sido cada vez menos freqüente quando vou ao cinema? Tem sido cada vez mais difícil dar uma nota 8 (ou superior) para um filme. Será que estou ficando velho e pessimista? Ou mais chato, pois não me deixo divertir, enquanto Roger Ebert, o guru dos críticos, parece gostar de quase tudo que vê? Nos últimos anos, poucos filmes me causaram uma grande e verdadeira admiração, fixando-se indelevelmente na memória. “Hotel Ruanda”, “V de vingança”, “Crash”, “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, “Match point”, “Cartas de Iwo Jima”, “A vida secreta das palavras”, “Closer”... e não muitos mais. And so it is, diria Damien Rice.
Na semana passada, contudo, mais duas vezes saí admirado do cinema. De novo, temáticas complexas. “Onde os fracos não têm vez” mereceu os Oscars que recebeu. O título em português é injusto para com o plot do filme, mas isso é mero detalhe. O que importa é o suspense minimalista criado pelos Coen, sem ajuda de música, noites tempestuosas ou ombros detidos por mãos que surgem do nada; em pleno dia, Josh Brolin, armado, descobre-se no meio do deserto, cercado de camionetes, cadáveres e dólares, e a cena é muito mais tensa que ver uma adolescente indefesa apavorada por um maníaco em uma casa escura. Isso sem contar o olhar fixo e implacável de Javier Bardem, qual uma morte ambulante que, em lugar de foice, carrega um maçarico. A violência que o personagem de Bardem representa e que move o filme, como a violência que sofremos hoje em dia, não se sabe mais de onde vem nem para onde vai. Esse desencanto, nos olhos cansados do policial interpretado por Tommy Lee Jones e que está no encalço do assassino, torna universal um filme que à primeira vista poderia parecer um convencional faroeste moderno.
Se eu havia gostado do novo trabalho dos irmãos Coen, mais ainda me agradaria “Sangue negro”, um filme mais de ator do que “Onde os fracos não têm vez”, mas nem por isso menos admirável. Contando a história de como um minerador, após cavar sozinho seu primeiro poço, tornou-se um magnata do petróleo na Califórnia, o diretor Paul Thomas Anderson lança um olhar crítico sobre como os Estados Unidos se tornaram o que são. A ambição, a determinação e a falta de escrúpulos são lei na vida do personagem do britânico Daniel Day-Lewis, numa interpretação devastadora que faz valer cada um dos poucos filmes em que ele tem atuado. Day-Lewis também encarnou, à sua maneira, a violência – desta vez, contra aqueles que se interpuserem entre a sociedade norte-americana e seus objetivos de riqueza e domínio, mesmo que sejam instituições como a igreja e a família.
Sim, acho que estou ficando chato em relação a filmes. Chato e hiper-realista. O hábito de vê-los me fez mais exigente em termos de fotografia, direção, interpretação, facilitando a identificação de um filme mediano. E as histórias que os filmes contam? Ainda posso me encantar por uma aventura, uma fantasia, uma comédia, mas um toque de realidade, nua e crua, se mostra necessário. Afinal, sinto-me um humanista, e as mazelas na sociedade, nas relações interpessoais ou no psicológico, uma vez expostas, elas mesmas ou por meio de metáforas, criam possibilidade de que um dia sejam tratadas. Nada existe até que seja conhecido, e o cinema, embora poucas sejam as histórias verdadeiramente originais hoje em dia, é um meio de levar a realidade ao conhecimento de seus próprios protagonistas.
Em tempo: o título deste texto, como o do ganhador do Oscar mês passado, não é o mais adequado, eu sei... só não quis perder a oportunidade de usá-lo.
31.1.08
O mar
Credo, devo parecer presunçoso iniciando o texto assim, eu, que ainda não vi a terra desaparecer do meu campo de visão. Talvez por isso mesmo o mar exerça em mim tanta atração, assim como o tempo, a imagem e a palavra. Não há ano em que eu não busque um caminho que me permita vê-lo, ouvi-lo, senti-lo – e assim mesmo o mar ainda é apenas parte do meu imaginário.
O mar que concebo difere muito daquele que nos é dado pela vida moderna em um país tropical. Cerveja, esporte, sol a pino, sex appeal? É claro que o oceano mexe com minha essência, faz pensar em liberdade, em natureza, em amor – este próprio um anagrama para o título do texto. Porém, tanto a imagem que nos vendem de “Rio-quarenta-graus” quanto a realidade que encontramos – engarrafamentos, acidentes, poluição e praias lotadas e hiperurbanizadas – são um insulto ao local onde surgiu a vida.
Este Ismael ainda imagina um mar bucólico, crepuscular, para todas as estações, em frente ao qual os poetas possam encontrar inspiração, e os amantes, deixar navegar o pensamento com as velas da plenitude. Tão belo quanto perigoso, o mar azul e de águas tépidas dos pescadores de Caymmi é o mesmo das falésias britânicas e da bruma fria cantada por Macca em “Mull of Kintyre”.
Em vez de milhões esperando o ano novo em Copacabana em meio a um caos ocultado, vejo simples grupos de amigos, abraços e cabelos ao vento no aguardo do primeiro amanhecer. Em vez do triste paredão que rouba o pôr-do-sol em Balneário Camboriú, pequenas e acolhedoras casas, com seus avarandados dando passagem à agradável brisa com que o mar nos presenteia.
É assim que eu o imagino. Deixemos longe o barulho de carros, lanchas e jet skis e, enquanto não for possível a viagem já prometida, para, como Ismael, realmente conhecer o mar, sejamos apenas os namorados, pés tocando a areia, a ouvir, a cada quebrar das ondas, o oceano dizer o seu próprio nome: mar... mar... mar...
29.1.08
Entre o rosa e o branco
Chega de textos bregas. Chega, na falta de outras, de palavras excessivamente doces, como aquelas guloseimas feito plástico cor-de-rosa que os shoppings vendem a granel. As palavras não são itens de confeitaria, mas frutos, cujo sabor deveria variar conforme o paladar que os colhe. Quero que elas digam a beleza que tiverem, nada mais.
Já falei sobre o vento, o outono, a chuva... Às vezes eu me sinto um mero adicionador de glicose às intempéries, tão monocórdio como o entediado Bill Murray de “O feitiço do tempo”. Dias iguais, palavras iguais. Que ironia! Tal e qual Ferdibrand, o enviado especial a Punxsutawney, Pennsylvania, era um jornalista oferecendo seu reino por uma palavra que fizesse a diferença.
E chega de justificativas. Estou sempre “voltando” para meus cinco ou seis leitores, se os tiver. Ausência de inspiração é uma coisa, falta de disciplina é outra. No ano que acabou, deixei pela metade uma dezena de textos, como aquele sobre o desabamento da obra do metrô em São Paulo. Inútil requentá-lo, o tema já fez até aniversário. Falando em aniversários, em julho de 2007 aconteceu o centenário de Frida Kahlo e nem aproveitei o fato de que uma amiga esteve no México na época das comemorações. Meu blog poderia ter uma correspondente internacional, mas que justificativa há para a falta de determinação na hora certa?
Sim, chega de férias para o blogueiro. Não que eu vá escrever todos os dias, mas tenho feito chover pouco neste campo, bem menos do que eu queria. Um por cento de inspiração e noventa e nove de transpiração? Nem tanto, mas, enquanto eu oscilar apenas entre o rosa de palavras adocicadas e o branco de folhas não escritas, a grama do blog vizinho sempre parecerá mais verde.
14.1.08
Ano novo
* * * * * *
Assim que Papai Noel sai de cena, todo 25 de dezembro, e enquanto nosso país globelezado não se torna a própria Marquês de Sapucaí, aquecemos tamborins e quadris com a alegria exagerada da virada do ano. Nada contra a festa, a confraternização, os fogos de artifício, mas o ano que acaba e o que chega são tratados de forma desproporcional.
A catarse da transição enseja muitas vezes que o “adeus, ano velho” manifeste junto um destrutivo “já vai tarde”. No final de 2005, por exemplo, a loja de moda jovem Gang forrou as ruas em cidades gaúchas e catarinenses com outdoors dizendo, em letras garrafais, “Fuck you 2005”. Além de anti-educativa e grosseira, tanto que chegou a ser retirada pela Justiça em Santa Catarina, a campanha queria demonstrar um sentimento que, acredito, não é verdadeiro.
Algumas vezes, preferiríamos legitimamente que certo ano ou certa época da vida não tivesse existido. Acidentes, mortes em família, fracassos, desamores – todos deixam marcas profundas. O tempo, contudo, costuma cicatrizar as feridas, e a época de infortúnio pode, sim, ser relembrada não somente pelo trauma, mas pelo aprendizado: como enfrentamos aquele período, por que ele aconteceu, o que é possível fazer para que se repita.
Por isso, que me perdoem aqueles para os quais o ano velho não valeu um só de seus 365 dias; se nem tudo serão alegrias em 2008, tampouco 2007 foi uma tristeza só. Apesar de meus ceticismos, no fundo sou otimista. A felicidade, se representada num gráfico, não é uma linha contínua no tempo, afinal não somos princesas de conto de fadas; antes, ela é uma sucessão de pontos criados pela intersecção entre a linha da vida e os fatos felizes que vivemos – ou a forma como os interpretamos. Quanto mais intersecções, mais contínua essa linha, e mais teremos desse misterioso e aparentemente inatingível sentimento chamado felicidade.
Portanto, feliz 2008!
5.12.07
Ão, ão, ão...
Unanimidades nunca me agradaram muito, especialmente as propaladas pela mídia. Há muito tempo viro a cara para Flamengo e Corinthians e, à medida que se escancarava a condição desses dois de queridinhos da Globo (Vasco e São Paulo também têm a simpatia da emissora dos Marinho), a aversão aumentava. A gota d’água foi o Campeonato Brasileiro de 2005. Lembram? Cinco dias após o Internacional tirar do eixo Rio-São Paulo a liderança da competição, a revista Veja denunciou o escândalo das arbitragens de Edílson Pereira de Carvalho, onze partidas restaram anuladas, e o tapetão, habilmente puxado, deu o título ao “Timão”.
Se o que se quer é lisura no futebol, que ela valha para todos, inclusive os grandes. Inter, Grêmio, Fluminense e Botafogo já provaram o sabor da segunda divisão. Sabem como é jogar com menos dinheiro, menos partidas televisionadas e maiores distâncias entre estádios. Pela TV Globo, o Corinthians já estava lamentando os 2.400 quilômetros que separam São Paulo e Fortaleza. Será que causaram algum compadecimento os 3.200 quilômetros que América, Inter e Grêmio tiveram de percorrer entre Natal e Porto Alegre?
É constrangedora a histórica diferença de tratamento entre as equipes. Os clubes fluminenses e paulistas que fazem parte do Clube dos 13 recebem maiores fatias do total de verbas distribuídas. Além disso, para que o público gaúcho pudesse assistir a um jogo do Inter ou do Grêmio pela televisão, era necessário que fosse contra Flamengo, Corinthians ou São Paulo. Manobra pouco inteligente, pois era um convite para trocar de canal ou desligar o aparelho.
Que digam, como sugeriu o presidente do Corinthians, que o Inter se deixou vencer pelo Goiás domingo passado e, assim, mandar o time paulista para a Segundona. Teorias da conspiração à parte, bastava ao time do Parque São Jorge vencer o Grêmio, o que não conseguiu, sacramentando a justiça do rebaixamento. A sensação de vitória contra a hegemonia foi tal que gremistas e colorados se irmanaram na torcida anticorintiana. E, de minha parte, por todos esses motivos, nunca fiquei tão feliz com uma derrota do meu clube, o Internacional. É bom, de vez em quando, ver uma mudança.
20.11.07
Versos antigos
(escrita em 1987)
Sou o lugar onde estou
E até isso me querem tirar:
Ligo energia,
Entro em sintonia;
Desligo e saio do ar.
O homem nunca esteve
Nesta terra indomável
Domada por tele-apatia
Que um dia não mais seria;
Seria controlável.
* * *
Voa
(escrita em 1988)
Voa:
Vou à toa
Rever ao relento
A quem se quer
E quem sequer
Tem o tempo que sobra,
Sopra só pra ver o vento
Que voa?
* * *
Um pouco da alegria
(escrita em 1988)
É sereno que penso num pouso à luz
E é paciente que espero da sina o fim.
E é de novo que vejo só o mar, só o mar...
Por que é de novo que perco?
Por que o dia acabou
Se é ainda alegre que busco
Um pouco da alegria?
2.11.07
O anjo e o sonho

Aos olhos pregados no escuro
A cor deste sonho destoa:
Meus passos pedindo futuro
A um anjo calado que voa.
Silente ele escapa ao afago
Da mão que eu havia estendido
Deixando em seu rastro um lago
Espelho de amores cuspidos.
Enquanto à tona eu estive
O anjo me fez poderoso
Jurei-lhe: “Por ti é que vivem
Meu dia e também meu repouso”.
O anjo calou, todavia,
Por raiva, orgulho ou medo
E o sonho então submergia
Ao peso de inútil segredo.
E assim em seu vôo prossegue
O anjo da alma imprecisa
Os sonhos que hoje ele ergue
Em fuga amanhã ele pisa.
29.10.07
Um coração
Mas não foi, soube esta semana. O coração dele parou de bater, levando junto o que nele estivesse guardado. Morte súbita aos 35 anos. Um rapaz. Triste e chocante notícia, apesar de conhecê-lo só de vista. Meus pais já viveram mais que duas dessas vidas. Eu, nessa idade, nem era pai, nem havia redescoberto o cinema. Há vidas que terminam antes de começar.
Mesmo desconhecendo a história dele, pergunto: o que fica? De que vale guardar frustrações, economizar sorrisos e acumular preocupações se é para tudo virar pó hoje ou amanhã? O que pensamos não acontecer acontece. E, pergunto de novo, o que fica? Uma lição para os sobreviventes, quem sabe. De que, se é inevitável na vida um pouco de fel, que este não predomine. Se a vida é apenas uma expectativa, o amanhã não passa de possibilidade, e melhor seria se jogássemos o rancor, a amargura, a dúvida às nossas costas, em vez de deixá-los à nossa frente, esperando que caiamos num buraco por nós mesmos cavado.
1.10.07
Curtas
* * *
Duas derrotas do Colorado em Gre-Nais, e dê-lhe Deuter para suportar tranqüilo a flauta do velho rival da camisa azul. Depois, cedemos em dois minutos um empate em 2x2 com o Atlético Mineiro – no dia seguinte, a trilha que eu ouvia era Enya. E nem adiantou jogar melhor, domingo passado, se o adversário era o São Paulo, campeão escolhido pela Globo muito antes do fim do primeiro turno. O Inter acabou perdendo de 2x1, de virada, e com a ajuda da arbitragem. E meu estoque de música new age está terminando...
* * *
Deu na televisão esta noite: o senador sergipano Almeida Lima, um dos mais fortes aliados de Renan Calheiros, será o relator de dois processos contra o presidente do Senado. Tudo para apressar a absolvição de Renan – e a entrega da pizza, que não pode esfriar. E a escolha do relator foi feita pelo presidente do Conselho de Ética! Ainda bem! Logo, logo, teremos esquecido toda essa história. Aliás, do que eu estava falando, mesmo?
16.9.07
A vitória da democracia (sic)
Ao mesmo tempo, a vida adulta me amadurecia politicamente, e aos poucos eu descobria significados novos para palavras velhas. Democracia passou a significar intervenção, quando não ocupação, pelos EUA, de países do Terceiro Mundo; ou a defesa de interesses de uma classe ou nação sobre todos os outros. Roubo, corrupção, desfaçatez, fisiologismo, nepotismo – todos camuflados pelo azeitado discurso de políticos eleitos pelo voto popular.
Minha antiga palavra de ordem torturou-me de novo, dita, quarta-feira passada, por um sorridente senador que comemorava a manutenção de seu mandato: “O resultado da votação é uma vitória da democracia”, disse Renan Calheiros, absolvido por 40 de seus colegas das acusações de quebra de decoro parlamentar. Mas qual democracia? Quem do povo votou ou presenciou a votação, se até deputados federais precisaram de liminares na Justiça para poder entrar no plenário do Senado?
Antes mesmo de começar a democrática sessão secreta, entretanto, eu já sentia a indiferença quanto ao resultado. Vi nos jornais, na rua, faixas, passeatas, protestos contra a corrupção, contra Renan Calheiros. Mas o que mudaria se o resultado fosse outro? Sem querer defender o presidente do Senado, a perda do mandato serviria de exemplo aos outros políticos? Saúde, segurança, educação, distribuição de renda, respeito aos direitos da população seriam mais levados em conta? A CPMF acabaria? Duvido.
Em algumas coisas meu predominante otimismo teima em esbarrar, e a cultura, no Brasil, de um Estado a serviço das oligarquias, de um Estado teta para quem conseguir mamar, é uma delas. Por “vitória da democracia” devemos entender vitória do próprio Renan Calheiros, que, afinal, foi escolhido por todos nós para ser processado acima dos rigores da lei, fosse qual fosse seu crime; vitória dos 40 senadores que nele votaram, pois, segundo notícia publicada pelo Estadão, gratidão não deve faltar; vitória de Mônica Veloso, ex-amante do senador, que saltou para a fama e estará nas páginas de Playboy. Talvez, no futuro, tenha descoberto seu talento como atriz de novela ou apresentadora de TV.
Esses são os vitoriosos, essa é a democracia que venceu quarta-feira passada. Não a democracia como imaginei, ou como me foi ensinada, e que, se um dia existiu, foi modificada nos gabinetes enquanto era preparado o fim do regime militar. A democracia que vejo hoje em meu país não me serve.
9.9.07
A vida secreta das palavras

Tão raras têm sido minhas idas ao cinema que me vi perdido ontem, ao buscar um entre os 40 títulos na programação. Para quem trazia intocadas na mente as imagens do nada convencional “O livro de cabeceira”, de Peter Greenaway, assistido em junho, a escolha se tornava ainda mais difícil. Decidi então confiar apenas no palpite que uma ficha técnica me assoprava.
A origem espanhola do filme, por si só, não queria dizer muito, mas o engajado Tim Robbins, um de meus atores favoritos, não cometeria um deslize logo depois de ter filmado “A guerra dos mundos” de Spielberg. Além disso, foi em frente aos cartazes que descobri o dedo dos irmãos Almodóvar, Agustín e Pedro, na produção executiva. E o título do filme parecia, o tempo todo, mexer com vara curta com um de meus motes favoritos – o silêncio. Assim resolvi conferir “A vida secreta das palavras”, da catalã Isabel Coixet.
A escolha não poderia ter sido mais feliz. Josef (Tim Robbins) se recupera das queimaduras e da perda da visão causadas por um acidente na plataforma petrolífera em que trabalha, e a enfermeira Hanna, vivida por Sarah Polley, é contratada para atendê-lo. Josef é curioso, falador, e Hanna, introspectiva, é quase surda. As luzes oblíquas do filme, adequadas aos mares da Irlanda, onde se passa a história, e os pouquíssimos funcionários que restam na plataforma desativada ressaltam o ar de solidão e o diálogo aparentemente impossível que vivem o petroleiro cego e a enfermeira surda.
O maior valor deste drama, a um só tempo delicado e contundente, é mostrar aos poucos como Hanna e Josef se permitem dialogar – e, principalmente, por que o silêncio é escolhido por tantas pessoas, as palavras secretamente ganhando vida e esperando o momento exato de serem ditas. A descoberta gradual dos dois personagens permite também ao público encontrar no filme de Isabel Coixet uma dimensão insuspeitada, incabível neste comentário, mas que explica também o caráter indie da obra da catalã. Lançado nos Estados Unidos em apenas uma sala, rendeu na “terra do cinema” míseros 20 mil dólares, enquanto, no resto do mundo, arrecadava 5 milhões de dólares. Prova de que o bom cinema independente tem vida própria, como as palavras que Josef e Hanna teimavam em ocultar.
Foto: http://www.rottentomatoes.com/m/secret_life_of_words/gallery.php?page=2&size=hires&nopop=1; Strand Releasing
28.8.07
A primeira viagem

“Se fazer cinema é loucura, fazer animação é cretinice.”
A frase, escrita a giz nas costas de um quadro-negro já vão dezesseis anos, ainda está lá, conservada pela superfície áspera que a recebeu. O tom debochado da frase também é uma ironia, já que serviu de “moral da história” para um filme de animação no qual tomei parte. Nessa empreitada também estavam André Grassi e Leandro Steiw, então colegas de Jornalismo e grandes amigos meus até hoje. Essa foi minha primeira experiência com cinema... uma “brincadeira” em super-8 que custou longas tardes desenhando bonequinhos e cenários sobre papel vegetal e fotografando-os quadro a quadro, mais uns seis meses esperando que os rolos voltassem da França, pois no Brasil nenhum laboratório mais fazia a revelação da bitola.
Fazer cinema, então, não é uma loucura?
Talvez não a loucura dos que perderam a razão, e sim a razão de ser de alguns tidos como loucos. Cinema é um empreendimento complicado, demorado, de risco – e ainda caro, mesmo com a diminuição de custos pela tecnologia digital. Os telefones celulares acenam de novo com a possibilidade de se fazer cinema com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, mas, quanto mais público quisermos para o filme, maior a estrutura necessária. Filme feito em celular não leva Oscar, Palma de Ouro ou Kikito. Pelo menos por enquanto.
Apesar disso tudo, o lado aparentemente desarrazoado dessa loucura parece indispensável na carreira de um diretor. Cinema também é criatividade, improviso, maleabilidade. Cineasta tem que ser meio McGyver. Se ele esperar uma grua ou um dolly à disposição para começar, talvez não comece nunca. Houvesse muita ponderação ou “crises de realidade” e eu não teria escrito, filmado e apresentado publicamente, quinta-feira passada, “Café cortado”, meu primeiro curta-metragem.
Digo eu, mas o mérito é de cada participante dessa experiência de fazer cinema. Se por um lado dispusemos de profissionais na fotografia, na edição e em cena, além de uma boa câmera e bons programas de edição, por outro foi necessário pensar no filme como um fim e não como um meio, improvisar o tempo todo e, acima de tudo, aprender fazendo e errando. Se cinema já é uma pressão, imagine saber que só haverá uma oportunidade para usar a locação. Na hora algumas soluções aparecem, como um extensor de vassoura para servir de haste para o microfone boom – ou papel vegetal forrando o balcão de vidro para eliminar reflexos. Mas alguns erros são descobertos apenas na edição, quando já é tarde demais.
Quinze meses produzindo um filme de três minutos e meio. O que se ganhou com essa loucura? Fama, dinheiro? Não, vontade de fazer mais. De consertar os erros, de mostrar que se aprendeu alguma coisa e de, a cada produção, romper uma nova barreira. Cinema é um esporte radical. Está para as fotos de férias como o surfe está para a planonda. O desafio que ele faz à nossa liberdade é irresistível.
Posso não conseguir filmar as idéias que tenho para roteiros, posso, ainda, encarar o ação e o corta como mero hobby. Entretanto, não era o que sentia tendo ao meu lado, quinta-feira passada, a equipe do “Café cortado”, o brilho nos olhos de cada um apenas dizendo “nós conseguimos”. Apenas um pequeno passo, mas o primeiro, como o de toda viagem. Uma louca e, para os que amam o cinema, indispensável primeira viagem.
(Na foto: Lúcia Azevedo [diretora de produção], Nádia Prestes [editora], Cláudia Elisabeth Ramos [assistente de direção], Patricia Suri [atriz], Tito Ravaglia [ator], Fernando Telles [desenhista de produção] e Renato Wolff [diretor]. Foto: André Grassi)
3.8.07
Depois
Outros mecanismos subitamente falham, contudo, mesmo a uma distância de poucos quilômetros ou até de poucas quadras. O tempo que confirma por que o coração ainda sorri ao ver aquele amigo de infância – esse mesmo tempo mostra como aquele outro amigo na verdade era. Tornamo-nos então exigentes e passamos às vezes por intransigentes, insensíveis, mesquinhos. Não foi aquela dívida que desfez uma amizade de 15 anos; foi a falta de lealdade. Nem foi birra gratuita que afastou outra amiga de há tempos; foi a falsidade, o descaso.
Dia desses, passei por um afastamento anunciado. Uma excelente parceria para tantos assuntos e visões do mundo, mas recentes estremecimentos mostravam contendores com tabuleiros de tempo assaz diferentes. Então, a amiga de cabelos negros, palavras azuis e dias infelizmente opacos decidiu calar-se. Tornará a falar? Quando? É impossível ficar indiferente. Mas aprendi mais um pouco sobre esse delicado e às vezes imprevisível mecanismo, mesmo depois de vê-lo falhar. Que, como na vida e na morte, estamos sozinhos com nossos valores quando não somos compreendidos. Ninguém no mundo sabe o tamanho exato de uma decepção.
26.7.07
200
Para o estilo sucinto da Katia, duas palavras sintetizaram o sentimento: triste e preocupante. A Maristela preferiu uma metáfora... quem dera fossem apenas gatos num novelo de lã! E o dinheiro gasto no Pan não é o problema, mas concordo com a Camila no que toca ao amadurecimento das instituições. Por fim, o Sean só confirmou o que eu havia comentado no blog da Márcia Benetti: tivesse eu esperado mais algumas horas para escrever e meu texto já seria bem diferente.
A emoção do primeiro momento fez ecoar nas palavras uma indignação que vinha desde a queda do jato da Gol, que desencadeou a chamada “crise do setor aéreo”. Não estou culpando governo, TAM, pista do aeroporto ou quem quer que seja pelo desastre. Deus queira que eu nunca seja chamado de especialista em qualquer coisa. Mas o governo federal ficou omisso durante dez meses, jogando a culpa aos céus, e o preço por enquanto foram 200 vidas.
Um amigo meu, que tem curso de pilotagem, está indignado com a cobertura dada pela imprensa: aquelas ranhuras que ajudam a drenagem da pista, o tal de grooving, não impediriam o acidente. Nem o reverso seria obrigatoriamente a causa. E por que, pergunta-me ele, tanto espalhafato se muito mais gente continua morrendo nas estradas?
Não, o avião não deixou de ser o meio de transporte mais seguro. Mas nunca vi um acidente rodoviário matar, sozinho, 200 pessoas. E também 200 famílias morreram um pouco em fração de segundo. Jornais, TV e Internet exageram na dose, confundem às vezes, manipulam sempre – a Globo, por exemplo, parece empenhada em desacreditar o aeroporto de Congonhas –, mas a comoção nacional e a necessidade de respostas são inegáveis. Houve problema no reverso, houve derrapagem? A velocidade do avião era alta ou baixa? Até ontem, eu achava que o piloto havia tentado arremeter, não sei mais. Isso sem contar a balbúrdia que se tornaram nossos aeroportos.
Cada um tem sua temperatura de sangue, esta é a minha. Na quarta-feira passada, era um choque ver, na rua, bandeiras a meio pau, em luto pelas vítimas do acidente. O tempo vai aparando as arestas, mas ainda estou perplexo com os fatos e irritado com a inatitude, que tem sido, com a corrupção e a desfaçatez, um dos grandes males deste país. Por duro que seja dizer, talvez tenham sido necessárias as 200 mortes de Congonhas para que alguma coisa aconteça.