31.10.08

Quando entrar novembro

A poesia de Beto Guedes fixou em palavras uma idéia que já tínhamos – a de que a boa nova espera setembro para andar pelos campos. Pudera, setembro nos dá os oito primeiros dias da primavera. Meu ano imaginário da infância localiza nesse mês ainda casacos e blusões grossos de lã, mas, ao mesmo tempo, os primeiros dias de sol forte proporcionando uma cor diferente, mais intensa, no retorno aos passeios de domingo à tarde.

É estranho, pois, historicamente, setembro é o mês mais chuvoso do ano em Porto Alegre. Mês de chuvas e de ventos – de transição e ainda de espera, bem diferente daquela primavera subitamente acolhedora das histórias infantis. Talvez o setembro mineiro, aquele de Beto Guedes, seja mais ameno e brilhante que o gaúcho. E a culpa pelas lembranças distorcidas quem sabe seja dos tons vivos do filme Kodak que meu pai usava para bater os slides onde reside boa parte de minha memória.

E eu, que neste inverno recorri tantas vezes aos versos de “Sol de primavera”, acreditando em boas novas assim que o mês oito se fizesse nove, permaneci hibernando. Em nenhum mês tenho mais aniversários de amigos que em setembro – inclusive um bom punhado dos mais queridos que fiz na faculdade, quase um Clube da Esquina. Desejar felicidade e alegria por tantos aniversários também me deixou feliz, mas nada perto do que seria ver cumpridas algumas resoluções do mês.

Nada escrevi, tampouco fui ao cinema ou ao teatro, e uma hora de nado parecia não compensar os quinze minutos a pé até o clube. Poucos amigos encontrei, eles me fazem falta, e também neste inverno vi meu grupo de cinema, que comungava objetivos, sucumbir diante de vontades pessoais. Restou amarrar-se, perder tempo ou pensar só em trabalho, que pareciam estar na programação básica que trazemos do útero.

A acomodação era cômoda; a diversidade não dignificava o homem, cristalizado que estava ao fim de um inverno estranhamente morno e úmido, que lhe serviu para dar forças à influenza três vezes e que, nos dias mais frios, deixou-o confinado em plenas férias (férias?) em um apartamento a 11 graus centígrados. A porta da rua só se abria para atividades que utilizassem tão-somente o cerebelo. As demais nunca constavam da agenda, livro onde não cabem a poesia, o improviso e o inusitado, e que foi criado para listar desculpas para faltarmos a ocasiões interessantes.

Qual a boa nova? Onde o sol de primavera, neste setembro intelectualmente cinzento?

Então, bem mais apropriado que Beto Guedes me pareceu Green Day, cantando o esforço em deixar para trás frustrações e lembranças traumáticas em “Wake me up when september ends”. Mas veio outubro, indiscernível de setembro como é o pampa, dos dois lados da fronteira com o Uruguai. Apenas o vento corria mais forte, agora sim parecendo setembro. As horas, tão curtas para as desobrigações, para a vida pura e simples, para inspirar idéias e exalar palavras, apenas adiando projetos.

Até quando? Setembro findou, c’est printemps, novembro chega, e o homem hiberna. Hora de acordar.

Um comentário:

maristela disse...

Ah, que texto revelador. E em várias coisas bateu com o que houve comigo neste setembro que se foi. Nem sempre o sol de primavera abre a janela do nosso peito, amigo. Mas vamos em frente. E até porque il est printemps pra nós aqui, lá já é um belo outono hehehe
bj