15.10.09

Recinemizar


Pelo domo de vidro, vê-se o sonho de Vincent Freeman. Num futuro não muito distante, um voo quase corriqueiro rumo a Titã, lua de Saturno. Não para os olhos que o veem, impedidos de nascença, pelo próprio DNA, de ser algo muito mais do que os olhos de um faxineiro. Pois esses, os olhos de Vincent Freeman, veem mais longe e farão o que for necessário para driblar o próprio código genético e encontrar as estrelas.

O domo de vidro, arquitetura de Frank Lloyd Wright, foi emprestado à empresa Gattaca, corporação científica que batizou o filme de estreia do neozelandês Andrew Niccol, em 1997, no qual Ethan Hawke encarnou Vincent Freeman. Milhões de fotogramas dos filmes que já vi, e minha mente se ocupou em lembrar este insistentemente nos últimos dias. Pelo filme, pelas atuações? Pela história, eu sempre fã de distopias? Ou pela ambientação, que valeu uma indicação ao Oscar de Direção de Arte?

Não, o que me levou ao fotograma foi o mesmo foguete que conduzia os astronautas a Titã. E uma palavra: recinemizar. Voltar a viver o lado cinema da vida, e não estou falando apenas da sétima arte, de voltar a ir ao cinema após seis meses sem ver o apagar de luzes. Estou falando de acordar e acreditar no que se sonhou. Não importa por que Vincent quer partir, importa apenas que ele quer partir.

Assim como a faxina que Vincent fazia em Gattaca, meus carimbos nos processos são meu ganha-pão, mas não carimbam passaporte para lugar algum. Eles não dizem nada, não têm emoções como palavras ou imagens, não fazem nada por mim. Ou bem menos que algumas horas frente ao monitor na cada vez mais árdua tarefa cerebral de cavar e remexer ideias, sentimentos e informações e empilhá-los de forma razoável em um texto. Sim, os neurônios também têm músculos, e eles cansam, perdem a força.

Mas, para poder exercitá-los novamente, é preciso que o que faz sentido deixe de fazer sentido. É preciso fazer um barco atravessar uma colina em plena floresta amazônica; é preciso testemunhar um crime pela janela de casa e não poder fazer nada devido a uma perna quebrada; é preciso tomar banho na Fontana di Trevi com Anita Ekberg; é preciso cantar alegremente para Brian que veja a vida por seu lado brilhante, mesmo que se esteja pregado a uma cruz. Bem-vindo ao Clube da Luta!

Por isso, quando ontem, no primeiro encontro de uma oficina de roteiro, soube que assistiria a “Gattaca”, percebi-me novamente a caminho de Titã. O domo não é a separação entre mim e o sonho, e sim um post-it que um arquiteto lendário desenhou em vidro unicamente para não me deixar esquecer o sonho. Os planetas estão de novo em conjunção, é hora de recinemizar.

Em tempo: Vincent Freeman, do sânscrito e do inglês, significa homem livre vencedor.

* * * *
Foto:
http://www.vfxhq.com/1997/gattaca.html

3.10.09

Aquele abraço!

Não posso falar sobre o Rio de Janeiro. Só estive lá por uma semana, em 1985, e, desde então, o que soube foi por parentes e pela televisão. Na cidade que eu não via, Zé Pequeno já estava morto, e me assustava, naquela época, a simples ideia de não se poder abrir o vidro do carro. Se é assim hoje em Porto Alegre, minha visão do Rio atual deve ser inexata. Portanto, não posso falar sobre a sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Não posso ter certeza se o Rio é a cidade maravilhosa onde os personagens endinheirados de Manoel Carlos vivem a vida ou se várias cidades descendo os morros sobre a cidade, disputando (e tomando à bala) o poder escolhido pelo voto. Não sei se o Cristo Redentor abre mesmo os braços para a Guanabara e o mundo, se Ele é o da Sapucaí, maltrapilho e censurado, ou se tem os braços erguidos diante do assaltante, como na charge que vi um dia.

Mas eu sabia que o Comitê Olímpico Internacional escolheria o Rio de Janeiro para os Jogos de daqui a sete anos. O prestígio político do presidente Lula, a estabilidade econômica do Brasil a despeito da (aham) marolinha que começou nos Estados Unidos ano passado, o termômetro que foi o Pan-Americano de 2007, a escolha de nosso país para a Copa do Mundo de 2014 e um continente inteiro que ainda não havia sediado uma Olimpíada foram conjunção mais que suficiente. O Brasil é a bola da vez; que alguém diga se essa pedra já não estava cantada antes da abertura do envelope, ontem, com o nome da capital fluminense.

Eu sabia também que um dia sediaríamos o maior evento do esporte mundial. E me sinto orgulhoso, apesar de o Rio de Janeiro não continuar mais tão lindo como as imagens mostradas pela delegação brasileira ao COI em Copenhague – e apesar de eu não me iludir com promessas de transparência. Hoje em dia, lisura, sozinha, não promove um evento do tamanho de uma Olimpíada, ainda mais no Brasil, a terra do jeitinho. O noticiário fala em investimentos de R$ 25 bilhões para os Jogos Olímpicos, mas sabemos que o iceberg será maior. Não só pela propina (que haverá), mas por causa de cinco séculos de desgovernos, remendos e improvisações.


Trânsito, saúde, segurança, poluição e saneamento básico são desafios que transformaram nossas cidades em ambientes caóticos e necessitam investimentos pesados – não só no Rio e nas sedes da Copa do Mundo. Entretanto, os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil em 2014 e 2016, e temos afinal uma oportunidade para que os governos tenham vontade de minimizar esses problemas. Outra razão, portanto, para comemorar. Afora o esporte, pelo natural incentivo que receberá. Patrocinadores, investidores, empreiteiras, redes de televisão, todos quase tão capitalistas quanto o governo Lula, pelo verdadeiro Rio de Dinheiro. E nosso presidente? Ah, para ele já está sendo um abraço. Aquele abraço.

8.8.09

Bobagens, bobagens

Frédi, um amigo meu, me contava outro dia sobre uma conversa que teve com um colega de trabalho, chamado Mauro Arcélio. Perguntava o colega se, pelas leis da Física, não seria possível captar no ar a palavra dita há tempos por alguém. E Frédi, notório especialista em assuntos gerais, achou que não, que as ondas sonoras que produzimos, de tão fracas, se dissipam muito rápido, além de se misturarem com os outros sons. A hipótese então levantada pelo Mauro Arcélio: se tudo o que dizemos se dissipa, se nada fica, então por que nos preocuparmos em só dizer coisas sérias? Por que deixar de rir e de dizer bobagem se nada vai ser escutado dali a poucos segundos?

Lembrou-me aquela máxima, não leve a vida a sério, pois não se leva nada dela. Este Mauro! Pensei, faz sentido o que ele disse. Pelo menos para nós, mortais incapazes de mudar o mundo, o sério é pegar leve, com bom humor, e expressá-lo livremente. Manter a cara séria e amarrada, isso sim é bobagem. Nascemos longe de Kripton ou de uma Mansão Wayne. Que diferença vai fazer para a ordem do universo?

Não é o caso de cidadãos de outras esferas, inalcançáveis, e que sabem que deveriam levar a sério o que fazem. E se aproveitam de que a voz se dissipa na atmosfera, assim como nossa memória para certas bobagens.

A governadora acusada de improbidade administrativa pode deixar que crianças estudem em salas de aula de lata, mas os professores não podem protestar em frente à residência dela. Eles são “torturadores de crianças”, pois os netos da governadora não puderam sair de casa. Crusius credus! Na televisão, um ex-presidente, apoiando outro ex-presidente, manda o senador que disse a verdade digerir a própria língua, duela a quien duela. Dias depois, digladiam-se no mesmo local um cangaceiro de terceira categoria e um coronel de merda. Todos vossas excelências, trabalhando para o povo. É fácil alcançar R$ 2,7 bilhões para 81 senadores gastarem num ano, difícil é encontrarmos uma finalidade para o Conselho de Ética.

Qual o problema, então, de falar bobagem? A pior já fizemos, foi eleger certas pessoas. Vou dizer ao Frédi, se o Mauro Arcélio quiser um dia expressar todas as suas ideias, põe muito blogueiro bom no chinelo.

27.6.09

Heróis

Ontem à tarde, minha filha Luísa, 3 anos, empilhava, uma a uma, minhas revistas Set. Alcanço a ela uma revista, ela pega, olha a capa e põe o exemplar na pilha. Passo a ela um número em que uma foto enorme de Angelina Jolie domina a capa. Luísa aponta para o rosto da atriz e pergunta:

– Mamãe?

Começo a tentar responder, enquanto ela pega a seguinte, trazendo Christopher Reeve na roupa de Superman, e pergunta:

– Papai?

Sem querer, e sem saber quem são Angelina Jolie ou Superman, Luísa me lembrou que para nós, filhos, nossos pais costumam (ou deveriam) ser as pessoas mais poderosas, bonitas e fortes do mundo. Os seus primeiros heróis. E ninguém precisou dizer isso a ela, pois ela nasceu sabendo.

18.1.09

Passagens (março): o segundo passo

O que fiz em termos de cinema após a apresentação de meu primeiro curta-metragem não condisse com o entusiasmo daquele momento. Ao longo de dois meses, fui convidado para co-dirigir outro curta, no qual precisaria comandar ensaios com um elenco bem maior, e considerei fazer direção de produção de um terceiro filme, junto a uma equipe profissional. Que desafios! Essas produções, no entanto, não foram adiante, e o entusiasmo kaputt!, fez água. Meu café, mais que cortado, parecia pequeno.

Agarrei-me então a uma tábua que eu não esperava. Entrei para um grupo de estudos sobre direção de arte, coordenado por Gilka Vargas e Iara Noemi. Minha ignorância sobre o assunto não era de admirar; mesmo no meio cinematográfico, muita gente ainda não reconhece que o diretor de arte não é meramente o responsável pelo cenário. Não, ele comanda uma grande equipe de técnicos (cenógrafos, figurinistas, maquiadores, entre outros), dando coerência artística e estética a todo esse trabalho. É (ou deveria ser) um dos manda-chuvas do set de filmagem, junto com o diretor de fotografia e o diretor propriamente dito.

Nem penso em trabalhar com direção de arte, mas o conhecimento nessa área mudou minha concepção sobre cinema. Assim como o montador, ao decidir os tempos das tomadas, o diretor de arte, no momento em que define ambientes, relações entre espaços e cada objeto que estará em cena, tornou-se para mim também um dos “donos” do filme. E passei a ir ao cinema cuidando coisas diferentes, como distribuição de espaços, texturas predominantes e objetos com significado especial para a história.

Quanto mais sei sobre cinema, maior o abismo entre os enlatados norte-americanos e os filmes ditos “de arte”. Alguns diretores podem ser generosos com o público, como Woody Allen ao explicar a metáfora (genial, diga-se de passagem) da bola de tênis em “Match point”. Mas não obrigatoriamente, e então podemos ver o filme sem entender o que representa, por exemplo, a casa em “Delicatessen” (dos franceses Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet) ou o relógio do capitão em “O labirinto do fauno” (do mexicano Guillermo del Toro).


Mas este meu segundo passo no mundo do cinema também teve efeitos práticos. Confirmou a volatilidade de grupos e projetos no universo cinematográfico. Se pouquíssimos sobraram do grupo de estudos inicial, em março, que parecia reunir sozinho todas as funções básicas de um curta, também havia no final do ano outras pessoas, com sangue novo e boas idéias. Recuperei a vontade de escrever e filmar (alô, Paula! Vamos fazer um filme?). E percebi que, embora esteja me naturalizando nesse país chamado cinema, ainda me sinto um estrangeiro – aviso para que eu dê novos passos e siga caminhando por ele.

2.1.09

Passagens

Os segundos não mais se continham na coluna do tempo e o ano velho se fez novo. Da mesma forma, as palavras transbordavam após outro longo silêncio, pedindo que o papel as retivesse, antes que eu as perdesse por esquecimento.

De todas as passagens do ano que findou, algumas ainda marcam a memória, que, aceitando gentilmente o convite que lhe fiz, trouxe a matéria para os próximos textos. Peço desculpas pela antigüidade dos temas – é que considerei ainda relevantes na minha história, pontuando os meses de 2008.


E rogo ao leitor, não me peça por enquanto as regras desse “acordo ortográfico” (sic), tão necessário à nossa cultura quanto um coquetel de aniversário da ABL. Isso nem me passou pela idéia.

9.11.08

Obama e o mundo pós-Bush

Change – We can believe in. Esse o slogan que Barack Obama usou em sua campanha, e que estava em cada púlpito do qual ele discursava. Será o primeiro presidente negro dos Estados Unidos capaz de efetuar essa mudança, que o povo norte-americano (o próprio Obama dizia) e o mundo todo (nós bem sabemos) necessitam?

A idéia de um negro ocupando o Salão Oval da Casa Branca, até a campanha presidencial terminada dia 4 nos Estados Unidos, ainda muito vaga, pertencia ao imaginário da televisão e do cinema. Desde um Sammy Davis Jr. criança em 1933, escassa meia dúzia de atores interpretou o papel, sendo os mais conhecidos os presidentes vividos por Morgan Freeman em “Impacto profundo” e Dennys Haysbert na série “24 horas”.

E então o precedente, improvável para muitos, foi aberto, o que foi comemorado em todo o mundo. No Quênia, país onde nasceu o pai do presidente eleito, a nação parecia festejar o fim de uma guerra ou a queda de um ditador. Tanta alegria pode parecer exagerada: no primeiro discurso após a eleição – e em suas primeiras atividades no gabinete de transição – Obama prometeu medidas imediatas contra a crise econômica mundial, mas sem deixar de ser um presidente capitalista, da democracia, da liberdade e da oportunidade.

A pá de cal deitada sobre a campanha do republicano John McCain foi justamente essa crise econômica, contra a qual um George W. Bush atrapalhado, negligente com as populações pobres dos Estados Unidos e ainda sem conseguir justificar as perdas em vidas e dinheiro em duas guerras na Ásia pouco soube fazer. O presidente republicano foi, sem querer, o maior cabo eleitoral do candidato democrata.

Obama recebe um governo desacreditado em termos sociais, econômicos e ambientais, precisando se recuperar de um retrocesso de oito anos. Foi essa situação que fez o eleitorado norte-americano tornar real uma possibilidade tão remota – e a cor da pele do novo presidente, embora não tenha sido lembrada por ele próprio em seu primeiro discurso, justifica a esperança e a comemoração.


Afinal, a vitória de Obama é a vitória da tolerância sobre o preconceito e do diálogo sobre a imposição, mesmo que o sucesso do novo presidente contra as vicissitudes que sofre a população mundial seja relativo. Nascido no Havaí e tendo vivido na Indonésia, Barack Obama não cresceu imaginando-se o umbigo do planeta e já conviveu com a realidade do Terceiro Mundo.

É razoável esperar dele um posicionamento mais aberto, universal e preocupado com o futuro – com o meio ambiente, com a realidade das outras nações, com o uso da riqueza mais em preservar vidas do que em eliminá-las. Mesmo que muitos outros passos tenham que ser dados, o primeiro Obama parece disposto a dar, e é isso que esperamos também nós, cidadãos de outras nações, do presidente do país mais rico do planeta.

31.10.08

Quando entrar novembro

A poesia de Beto Guedes fixou em palavras uma idéia que já tínhamos – a de que a boa nova espera setembro para andar pelos campos. Pudera, setembro nos dá os oito primeiros dias da primavera. Meu ano imaginário da infância localiza nesse mês ainda casacos e blusões grossos de lã, mas, ao mesmo tempo, os primeiros dias de sol forte proporcionando uma cor diferente, mais intensa, no retorno aos passeios de domingo à tarde.

É estranho, pois, historicamente, setembro é o mês mais chuvoso do ano em Porto Alegre. Mês de chuvas e de ventos – de transição e ainda de espera, bem diferente daquela primavera subitamente acolhedora das histórias infantis. Talvez o setembro mineiro, aquele de Beto Guedes, seja mais ameno e brilhante que o gaúcho. E a culpa pelas lembranças distorcidas quem sabe seja dos tons vivos do filme Kodak que meu pai usava para bater os slides onde reside boa parte de minha memória.

E eu, que neste inverno recorri tantas vezes aos versos de “Sol de primavera”, acreditando em boas novas assim que o mês oito se fizesse nove, permaneci hibernando. Em nenhum mês tenho mais aniversários de amigos que em setembro – inclusive um bom punhado dos mais queridos que fiz na faculdade, quase um Clube da Esquina. Desejar felicidade e alegria por tantos aniversários também me deixou feliz, mas nada perto do que seria ver cumpridas algumas resoluções do mês.

Nada escrevi, tampouco fui ao cinema ou ao teatro, e uma hora de nado parecia não compensar os quinze minutos a pé até o clube. Poucos amigos encontrei, eles me fazem falta, e também neste inverno vi meu grupo de cinema, que comungava objetivos, sucumbir diante de vontades pessoais. Restou amarrar-se, perder tempo ou pensar só em trabalho, que pareciam estar na programação básica que trazemos do útero.

A acomodação era cômoda; a diversidade não dignificava o homem, cristalizado que estava ao fim de um inverno estranhamente morno e úmido, que lhe serviu para dar forças à influenza três vezes e que, nos dias mais frios, deixou-o confinado em plenas férias (férias?) em um apartamento a 11 graus centígrados. A porta da rua só se abria para atividades que utilizassem tão-somente o cerebelo. As demais nunca constavam da agenda, livro onde não cabem a poesia, o improviso e o inusitado, e que foi criado para listar desculpas para faltarmos a ocasiões interessantes.

Qual a boa nova? Onde o sol de primavera, neste setembro intelectualmente cinzento?

Então, bem mais apropriado que Beto Guedes me pareceu Green Day, cantando o esforço em deixar para trás frustrações e lembranças traumáticas em “Wake me up when september ends”. Mas veio outubro, indiscernível de setembro como é o pampa, dos dois lados da fronteira com o Uruguai. Apenas o vento corria mais forte, agora sim parecendo setembro. As horas, tão curtas para as desobrigações, para a vida pura e simples, para inspirar idéias e exalar palavras, apenas adiando projetos.

Até quando? Setembro findou, c’est printemps, novembro chega, e o homem hiberna. Hora de acordar.

27.10.08

Diálogo pós-eleição

– Maria do Rosário, José Fogaça... esta foi a verdadeira eleição Sagrada Família.
– Ué, Sagrada Família a troco?
– Não lembra a Sagrada Família da Bíblia? Jesus, Maria e José...
– Tá certo, tem a Maria e tem o José, mas e o Jesus, cadê?
– Jesus somos nós, que fazemos milagre todo dia e vamos continuar carregando a cruz!

4.10.08

Voto útil

Eu estava seriamente inclinado a votar em Luciana Genro para prefeita de Porto Alegre, mas depois pensei melhor: entre Rosário e Rosado, mil vezes a primeira.

27.7.08

O cavaleiro e as trevas


Nem o filho galã de Mel Gibson em “O patriota” nem um escudeiro de rosto bonito que vive, ele próprio, o sonho de combater nas justas em “Coração de cavaleiro”. Saído de aventuras de época sob medida para a Sessão da Tarde, o ator australiano Heath Ledger vai ser lembrado por dramas reais, personagens de complexa composição psicológica, uma indicação ao Oscar – por “O segredo de Brokeback Mountain” – e, quem sabe, a criação de um mito.

Fui conferir sexta-feira passada a última atuação de Ledger, que fez dele o nome mais comentado no universo cinematográfico pop este ano. Ele interpretou o Coringa em “O cavaleiro das trevas”, novo filme da série “Batman” – cujas filmagens terminaram dois meses antes de Ledger ser encontrado morto em seu apartamento em Manhattan, fevereiro último, aos 28 anos, por overdose de medicamentos.

A promessa de que veríamos um fabuloso desempenho no papel do Coringa – suplantando o de Jack Nicholson há dezenove anos, no primeiro “Batman” de Tim Burton – tornou inevitável a comparação com James Dean, que morreu em 1955, aos 24 anos, antes da estréia de “Assim caminha a humanidade”, que ele estrelou com Elizabeth Taylor e Rock Hudson, e após uma carreira de apenas três filmes em dois anos. Mas mereceria Heath Ledger um lugar no panteão de atores míticos como James Dean e Marilyn Monroe? Ou o mito seria ele próprio também um mito?

O mais famoso dos vilões da série “Batman” não tem um papel tão preponderante em “O cavaleiro das trevas”, uma vez que o Homem-Morcego vivido por Christian Bale também divide atenções a outro vilão, o Duas-Caras (interpretado por Aaron Eckhart), e a uma dúvida que o atormenta: se for para combater o crime, vale a pena ser um pária e ainda pôr em risco a vida de outras pessoas? Mas este novo “Batman” faz uma curiosa oposição ao anterior, também dirigido por Christopher Nolan, em 2005. Se “Batman begins” era um filme sobre a gênese do herói, “O cavaleiro das trevas” se concentra na motivação para o crime, para a quebra das regras.

Enquanto o Duas-Caras faz do crime uma vingança pessoal, o Coringa é a própria personificação da loucura e do caos, voltada contra as instituições. E o personagem criado por Heath Ledger, se não dispensa as piadas cínicas e de duplo sentido, é bem menos risonho que tantos Coringas que possamos ter visto antes. Mais sombrio, mais desiludido, mais imprevisível – e, por isso mesmo, mais assustador; a maquiagem deliberadamente borrada e os cabelos desgrenhados, menos que um palhaço do crime, fazem deste Coringa um monstro demente, que pontua o filme todo com a lógica de sua loucura.

Christopher Nolan tirou um pouco o “pé no chão” que manteve em “Batman begins”, criando uma trama bem mais explosiva, complexa e rápida, por vezes de difícil compreensão, e com momentos que passam o limite do acreditável – como o embarque de Batman em um avião em pleno vôo e a tecnologia que permite a Bruce Wayne transformar todos os celulares de Gotham City em aparelhos de sonar. Mas “O cavaleiro das trevas”, devemos lembrar, é uma aventura baseada em quadrinhos, e seu ponto forte de ligação com o mundo real está na psicologia dos personagens.

Assim como Nolan e Bale recriaram Batman, Heath Ledger recriou o Coringa – e recriou-se também como ator. Independentemente de roupa e maquiagem, reconhecemos o ator quando nos esquecemos dele encarnando o papel, e foi impossível encontrar no Coringa de Ledger o filho do patriota ou o cavaleiro da Sessão da Tarde. Não podemos saber a qualidade do trabalho que Ledger nos proporcionaria se estivesse vivo, mas o Coringa mostrou suas cartas, ele também, da mesma forma que Batman, sendo um pária cavalgando nas trevas da loucura. E esse questionamento, em meio ao fim de carreira em plena glória, é suficiente para Heath Ledger se tornar um mito.


foto: http://www.rottentomatoes.com/m/the_dark_knight/pictures/44.php#highlighted_picture

14.7.08

A cara a tapa

O Blogger me avisa por e-mail a chegada de um comentário novo, e... oops! Um amigo daqueles que não perdem jogo no Beira-Rio me corrige: o Inter nunca esteve nem estará na Segunda Divisão. É verdade, Tito. Quando escrevi o texto carregando essa gafe, na realidade eu me referia a uma repescagem da qual o Inter teve de participar em 1979 porque, naquele ano, apenas os dois primeiros colocados no Campeonato Gaúcho tiveram classificação direta para o Brasileiro. O Inter havia sido o terceiro colocado. Eu já havia tirado essa dúvida, mas tinha me esquecido de corrigir a informação no texto. Mesmo sendo de dezembro passado meu post (e, pelo visto, a volta à Primeira Divisão, para os corintianos, apenas questão de tempo), não vejo por que não fazer a correção. Estou aqui para dar a cara a tapa, mesmo.

29.6.08

O crime da cena

Chego do trabalho sexta-feira passada e a Globo está exibindo o último pedaço da Sessão da Tarde, um filme chamado “Viajantes do futuro”. Não que valesse a pena tentar entender, mas já à primeira vista a atração (sic) parecia uma verdadeira viagem na maionese, misturando adolescentes num game em cadeiras sacolejantes e cheias de aparatos, esquiadores munidos de metralhadora, e Pat Morita para dar a impressão de que havia atores de verdade no filme.

Eis que presencio a cena do crime: em meio a toda essa salada, um mixer, desses de cozinha, com pás bem mais longas que o normal e comandado por controle remoto, sai voando por uma sala até digitar, num teclado dentro de uma mala, um determinado código. Tudo isso ao som de “A cavalgada das Valquírias”, de Wagner. Se fosse um besteirol como a série “Apertem os cintos”, ainda vá lá. Mas “Apocalypse now” não merecia isso.

Quis saber quem foi o herói que se achou cineasta ao insultar daquela maneira as tomadas do genial Francis Ford Coppola. “Viajantes do futuro”, de 1995, foi o último de oito filmes dirigidos por James Glickenhaus, um magnata do mercado de empresas nos Estados Unidos que pelo visto, na falta do que fazer, resolveu gastar tempo e dinheiro mostrando como não se faz um filme (ele também foi roteirista e produtor executivo de alguns de seus filmes).


Glickenhaus aparece na internet mais por sua coleção de carros de luxo que por sua contribuição ao cinema. “Viajantes do futuro” não mereceu comentário nem no site Rotten Tomatoes, e a média de notas dos usuários do IMDb é 3,7. Naturalmente, não encontrei a cena do mixer, então resolvi ilustrar este texto com o original, bem mais digno do termo sétima arte.



22.5.08

No fim do Brasil

Locais distantes e isolados sempre me fascinaram. Na impossibilidade de conhecer algum desses lugares nas férias deste ano, voltei a Santa Vitória do Palmar, que ainda guarda uma sensação de cidade longe de tudo. Se, indo para o sul, o Rio Grande é o último estado do Brasil, Santa Vitória é a penúltima cidade, pois mais 20km e se chega ao Chuí, extremo sul do país.

Para se ter uma idéia desse isolamento, Santa Vitória fica confinada numa longa faixa de terra (aquela “pontinha” na parte de baixo do mapa gaúcho) entre a lagoa Mirim e o oceano Atlântico. Um gigantesco terreno alagadiço, dividido entre a Estação Ecológica do Taim, arrozais e campo a perder de vista. O tratado de Santo Ildefonso, entre Portugal e Espanha, em 1777, chamou essa região deserta de “Campos Neutrais”, pois, naquela “terra de ninguém”, nem portugueses nem espanhóis poderiam alojar tropas.

Ainda hoje, duzentos sonolentos quilômetros de estrada reta, sem nenhuma cidade à vista, são o único caminho para Santa Vitória, cidade de 30 mil habitantes onde poucas coisas acontecem e o prédio mais alto tem três pisos. Junto com Chuí, foi a última cidade do Brasil a ser ligada ao sistema nacional de energia elétrica: há até dez anos, a luz ainda era produzida por um gerador a óleo.

A cada vez que vou a Santa Vitória, gosto de ir à barra do arroio Chuí, na fronteira com o Uruguai, voltar-me para o norte e imaginar-me tendo à minha frente o Brasil inteiro. Mas não existe ali nenhuma placa indicando nosso ponto mais meridional e, neste ano, embestei de procurá-la. Convenhamos, os quatro pontos extremos de um país continental merecem um marco geográfico que os indique. Procurei informações turísticas em Santa Vitória e no Chuí, mas a funcionária que me atendeu nem sabia o que era um marco geográfico, imagine saber se existia um.

Foi uma tia de minha mulher que me deu certeza: havia um marco, e era possível vê-lo na estrada, entre o Chuí e a Barra do Chuí, que eu já havia percorrido várias vezes. De fato, um quilômetro depois da cidade do Chuí, meio escondido pela vegetação, lá estava o marco de pedra, numa curva do arroio, mas como chegar lá? Os brasileiros a quem perguntei não souberam me dizer. Ironicamente, um uruguaio é que me deu a informação correta; ele conhecia melhor que meus compatriotas aquelas ruas ainda em solo brasileiro.

Coerentemente com tamanho descaso com nossa geografia e nosso turismo, as placas indicativas que um dia existiram nas quatro faces do marco haviam desaparecido. Via-se apenas uma placa, mais recente, alusiva a uma cavalgada de norte a sul do país, feita em 2005. E na base do marco, talhados na pedra, os nomes “Brasil”, de um lado, e “Uruguay” do outro. Virei-me de novo para o norte, como de hábito: eis o Brasil! Fotos de um e do outro lado, e, apesar de nenhuma placa que me confirmasse, dei como cumprida a missão.

Mas o Google Earth iria me desmentir. O verdadeiro ponto mais meridional do Brasil não é nem aquele marco nem a Barra do Chuí, mas outra curva do arroio, cerca de 1km antes de desaguar no Atlântico. E bem ali, no meio da água, está o marco que eu procurava. Outra ironia: em tempos de Internet, teria encontrado o extremo sul do país sem sair de casa, não in loco, após 500km de viagem. Contudo, nada substitui a sensação de estar lá. E a descoberta do verdadeiro marco é, na verdade, um convite para voltar, mais uma vez, ao fim do Brasil.

4.4.08

Cruzes