21.3.10

Poros desobstruídos

É noite em Santa Vitória do Palmar. A Lua, mesmo crescente, permite que se vejam as estrelas, artigo escasso onde moro. Uma frente fria havia entrado na véspera para todos os gaúchos, mas quem conhece aquela tripa de terra de duzentos quilômetros, isolada entre o Atlântico e a Lagoa Mirim, sabe que o vento nos Campos Neutrais é diferente de qualquer outro.

Uma brisa noturna a 16 graus centígrados, talvez menos, em pleno verão. De manga curta e bermuda, e o casaco em casa, a sete horas de ônibus, mas faço pouco caso. Aquele suave e delicioso vento quase frio não era tudo, mas era uma das coisas que eu mais queria, após experimentar o ar parado a 43,3 graus sobre Porto Alegre em 3 de fevereiro. Nem Cuiabá, nem o Rio, nem Timbuctu, no Saara. Naquele dia minha cidade havia sido o ponto mais quente da Terra, segundo a página da Accuweather.

E eis que as temperaturas mais, digamos, civilizadas me devolveram o direito não só à transpiração, mas também à inspiração. Que neurônios podem criar derretidos pelo calor? Era como se a palavra, que costuma usar a boca, a caneta ou os dedos, precisasse de poros desobstruídos para não sucumbir. E ela começa a surgir, devagar, no toque do vento sulino; no afresco de Andrea Pozzo que levei em 2 mil peças para montar em Santa Vitória; no silêncio e no cheiro de campo e de tempo de um hotel fazenda em São Lourenço, com seus móveis seculares e suas paredes de 90 centímetros de espessura; no retrato de Dorian Gray, que tive o prazer de conhecer; nas nuvens escuras que, de súbito, se abrem sobre o mar catarinense para, sabe-se lá, frustrar os meteorologistas ou confirmar que valeu a viagem.

Por isso costumamos juntar às férias o adjetivo merecidas. Para que o frescor do vento, do ar aberto varra o lixo que entope os poros da mente e o dolce far (quasi) niente, de maneira sutil, abra espaço, em nosso âmago, àquilo que realmente importa e que o mundo nos manda deixar em segundo plano.


É noite em Santa Vitória do Palmar. E o rosto sereno da brisa noturna, enquanto tantos dormiam, fez acordar uma palavra perdida.

2 comentários:

Sean Hagen disse...

*



inveja do frio, dos descampados, da noite estrelada, da inspiração.

mas o quebra-cabeça eu passo.




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DCDC disse...

Que coisa boa esta brisa, senti até aqui de Londres...