14.1.08

Ano novo

Mais um mês de jejum, devido (também) às férias, que me ensejaram alguns parágrafos novos e o que faltava para complementar outros mais antigos. Se seguirmos a receita, que ouvi de alguém, de que uma forma de atrair sorte no novo ano é fazer algo pela primeira vez na vida no dia 31 de dezembro, não perdi a chance em 2007, pois passei minha primeira virada de ano na beira de uma praia. Foi isso, além de um bate-papo com a Katia Kreutz, que inspirou este texto.

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Assim que Papai Noel sai de cena, todo 25 de dezembro, e enquanto nosso país globelezado não se torna a própria Marquês de Sapucaí, aquecemos tamborins e quadris com a alegria exagerada da virada do ano. Nada contra a festa, a confraternização, os fogos de artifício, mas o ano que acaba e o que chega são tratados de forma desproporcional.

A catarse da transição enseja muitas vezes que o “adeus, ano velho” manifeste junto um destrutivo “já vai tarde”. No final de 2005, por exemplo, a loja de moda jovem Gang forrou as ruas em cidades gaúchas e catarinenses com outdoors dizendo, em letras garrafais, “Fuck you 2005”. Além de anti-educativa e grosseira, tanto que chegou a ser retirada pela Justiça em Santa Catarina, a campanha queria demonstrar um sentimento que, acredito, não é verdadeiro.

Algumas vezes, preferiríamos legitimamente que certo ano ou certa época da vida não tivesse existido. Acidentes, mortes em família, fracassos, desamores – todos deixam marcas profundas. O tempo, contudo, costuma cicatrizar as feridas, e a época de infortúnio pode, sim, ser relembrada não somente pelo trauma, mas pelo aprendizado: como enfrentamos aquele período, por que ele aconteceu, o que é possível fazer para que se repita.

Por isso, que me perdoem aqueles para os quais o ano velho não valeu um só de seus 365 dias; se nem tudo serão alegrias em 2008, tampouco 2007 foi uma tristeza só. Apesar de meus ceticismos, no fundo sou otimista. A felicidade, se representada num gráfico, não é uma linha contínua no tempo, afinal não somos princesas de conto de fadas; antes, ela é uma sucessão de pontos criados pela intersecção entre a linha da vida e os fatos felizes que vivemos – ou a forma como os interpretamos. Quanto mais intersecções, mais contínua essa linha, e mais teremos desse misterioso e aparentemente inatingível sentimento chamado felicidade.

Portanto, feliz 2008!

2 comentários:

Cátia disse...

Essa virada eu disse "já vai tarde". 2007 teve muitas coisas boas na minha vida, mas não foi bom para o meu interior. Fiquei meio perdida, confusa, perdi muitas certezas que eu pensava serem certas, descobri que logo ali ao dobrar a esquina as coisas podem mudar e não temos controle sobre elas, também descobri que essa mudanças podem machucar e muito.
Belo texto, belo ponto de vista.
feliz 2008!

Katia K. disse...

Gostei do texto, e obrigada por me "citar", hehe :-)